Quando pensamos no futuro, geralmente pensamos em objetivos: onde queremos chegar, o que gostaríamos de conquistar, como esperamos estar daqui a alguns anos.
Mas existe outra forma de imaginar o futuro que também pode influenciar nossas escolhas: pensar em quem gostaríamos de nos tornar e em quem temos medo de nos tornar.
Na Psicologia, essas representações fazem parte do conceito de eus possíveis, proposto por Hazel Markus e Paula Nurius. Ele se refere às imagens que construímos sobre aquilo que podemos vir a ser, aquilo que desejamos ser e aquilo que tememos nos tornar. Essas imagens fazem parte da forma como pensamos sobre nós mesmos e podem funcionar como referências para avaliar o presente e orientar comportamentos futuros.
O eu desejado e o eu temido
Um eu desejado pode aparecer de muitas formas. Pode ser a imagem de alguém que consegue estabelecer limites, tem uma relação mais saudável com o trabalho, cuida melhor da própria saúde, se sente mais presente nas relações ou consegue lidar de outra maneira com determinada dificuldade.
O eu temido aponta para o outro lado. Talvez seja a possibilidade de se tornar alguém constantemente esgotado, cada vez mais isolado, preso a um padrão que já causa sofrimento ou vivendo de uma forma muito distante daquilo que considera importante.
Nenhuma dessas imagens é uma previsão. O fato de alguém temer determinado futuro não significa que ele acontecerá. Da mesma forma, imaginar uma versão desejada de si não faz com que ela se torne realidade automaticamente. Essas imagens podem ser entendidas como referências de direção, não como destinos definidos.
Pensar no futuro pode mudar o presente?
Pode influenciar, mas a resposta não é tão simples quanto parece. Os estudos sobre eus possíveis sugerem que essas representações podem participar dos processos de motivação e autorregulação. Um futuro que queremos alcançar pode servir como referência de aproximação, enquanto um futuro que queremos evitar pode funcionar como referência de afastamento.
Mas há uma diferença importante entre imaginar uma mudança e construir uma mudança. Pesquisas posteriores mostraram que ter uma imagem positiva ou negativa do futuro, por si só, não garante alteração de comportamento. Os eus possíveis tendem a ser mais úteis para a autorregulação quando são suficientemente concretos e estão ligados a estratégias que conectam aquilo que a pessoa faz hoje ao futuro que pretende alcançar ou evitar.
Em outras palavras: saber onde você gostaria de chegar ajuda. Saber como começar a caminhar naquela direção ajuda muito mais.
Seus hábitos não determinam seu futuro, mas podem mostrar uma direção
Imagine alguém que diz que deseja uma vida com mais equilíbrio, mas passa meses funcionando num ritmo que já considera insustentável. Ou uma pessoa que valoriza vínculos próximos, mas percebe que vem se afastando repetidamente das pessoas importantes sempre que surge algum conflito.
Um comportamento isolado diz muito pouco. Uma semana ruim também não define uma trajetória. Mas quando determinados padrões se repetem, pode ser útil observar o que eles estão produzindo e perguntar:
Se eu continuar funcionando dessa maneira, isso me aproxima ou me afasta da vida que considero importante?
Essa pergunta é diferente de tentar prever o futuro. Ela serve para examinar o presente. E é justamente aqui que o conceito de eus possíveis pode ganhar utilidade: não como uma fórmula de motivação, mas como uma forma de tornar mais visível a relação entre aquilo que valorizamos, aquilo que tememos e aquilo que estamos fazendo. Pesquisas sobre autorregulação ressaltam essa necessidade de conectar representações futuras a estratégias concretas e à percepção de que a pessoa consegue agir sobre seus objetivos.
O eu temido não precisa virar uma ferramenta de cobrança
Existe um cuidado importante nessa reflexão. Pensar em quem você não quer se tornar pode ajudar a identificar algo que merece atenção. Mas também pode facilmente se transformar em ameaça:
“Se continuar assim, vou acabar com a minha vida.”
“Estou me tornando exatamente aquilo que sempre temi.”
“Já deveria ter mudado.”
Nesse ponto, a reflexão deixa de ajudar a compreender um padrão e começa a funcionar como punição. O eu temido não precisa ser usado para assustar você até que mude.
Pode ser usado como uma informação: Existe alguma possibilidade futura que me incomoda porque reconheço, no presente, um padrão que gostaria de modificar? Essa formulação abre espaço para investigação em vez de condenação.
O eu desejado também precisa sair do abstrato
Existe um problema parecido no sentido oposto. “Quero ser feliz”, “quero ter uma vida melhor”, “quero ser mais saudável” ou “quero ser uma pessoa segura” são ideias que podem ser importantes, mas dizem pouco sobre comportamento.
Um dos achados recorrentes na literatura sobre eus possíveis é que representações futuras mais específicas e conectadas a estratégias tendem a ter maior utilidade para a autorregulação do que imagens vagas ou puramente aspiracionais. Por isso, pode ser mais útil perguntar:
O que essa versão de mim faria de maneira diferente?
Talvez “ter uma relação melhor com o trabalho” envolva não responder mensagens profissionais em determinados horários. Talvez “cuidar mais da saúde” comece pela regularização de uma rotina específica. Talvez “ter relações mais próximas” envolva aprender a permanecer em conversas difíceis em vez de se afastar imediatamente.
A imagem do futuro começa a ganhar função quando consegue conversar com comportamentos do presente.
Não é preciso escolher dez mudanças ao mesmo tempo
Quando uma pessoa percebe a distância entre a vida que deseja e alguns padrões atuais, existe a tentação de elaborar uma reforma completa. Dormir melhor. Fazer exercício. Organizar dinheiro. Melhorar relacionamentos. Estudar. Produzir mais. Usar menos o celular. Alimentar-se melhor. Tudo a partir de segunda-feira.
O problema não costuma ser falta de objetivos. Muitas vezes, falta transformar um objetivo amplo em algo que possa realmente ser executado, observado e ajustado.
Os modelos contemporâneos de autorregulação enfatizam que motivação precisa caminhar junto com estratégias e senso de agência. Desejar uma mudança não fornece automaticamente os meios para realizá-la.
Por isso, uma pergunta mais útil pode ser:
Qual é uma mudança concreta que faria diferença na direção que estou construindo?
Uma. Depois ela pode ser observada, testada e ajustada.
Entre quem você é e quem pode se tornar existe um processo
O conceito de eus possíveis não oferece uma técnica para descobrir quem alguém “deveria” ser. Também não significa que exista uma versão ideal de nós mesmos esperando para ser alcançada.
As imagens que fazemos do futuro são construídas a partir da nossa história, dos nossos valores, das experiências que tivemos e também do contexto social e cultural em que vivemos. O próprio conceito original já reconhecia que aquilo que conseguimos imaginar como possível para nós não surge no vazio.
Por isso, talvez a pergunta não precise ser apenas:
Quem eu quero ser?
Ela pode vir acompanhada de outras:
Quem eu tenho medo de me tornar?
O que nessa imagem me incomoda?
Existe algum padrão atual relacionado a esse receio?
O que está sob meu controle neste momento?
Qual pequena mudança poderia aproximar minhas ações daquilo que considero importante?
O futuro continua incerto. Mas observar a direção que estamos construindo pode tornar algumas escolhas do presente mais claras.
Referências
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